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Ele se chama André

AVISO: Antes ler este post saiba que ele só está aqui para servir como lembrança de algo legal que aconteceu comigo. Já é o 3º post que faço sobre meu amigo do ônibus e acho que já ta enchendo mas como o blog é meu, pra mim e pra quem mais quiser ler, resolvi postar para daqui ha uns anos poder ler e relembrar exatamente como as coisas aconteceram. A história é super legal pra mim, pode ser que seja pra você também [ou não].

Cheguei no ponto de ônibus. Chuva. Dia feio. Chegou o Shop. Ibirapuera e eu entrei, ele estava cheio como nunca – acho que por causa do tempo. O cobrador comentou comigo que estavam super atrasados e eu concordei. Fui desviando das pessoas no corredor e avistei um banco que tinha acabado de ficar vago mas com certeza já teria gente pra sentar. Um cara de preto na minha frente sentou na janela e as 2 mulheres que estavam em volta não. Eu perguntei: vocês querem sentar? E elas disseram que eu podia. Eu agradeci e quando estava sentando, olhei pro cara ao lado e QUEM ERA?! Meu amigo do ônibus! Oh my god, foi um choque! No susto do momento, eu solucei um oi, e ele, já com um sorriso retribuiu. Na minha cabeça, durante uma fração de segundo fiquei pensando: ai meu deus, sentei do lado dele e agora? Será que vamos conversar? Devo falar algo? Ignorar? …depois dessa fração ele diz: e ai, muito frio? …ai não! como se não bastasse meu nervosismo de não saber se falo ou não com ele, ele vem e me puxa o assunto mais manjado do mundo!

Eu, sem querer ser seca mas já sendo respondi: Ah, acabei de subir o escadão, to até com um calorzinho… [e fim] Ele sorriu e paramos a conversa. Acho que ele percebeu que eu não queria papo. Bom, o ônibus continuou seu trajeto e nós permanecemos quietos. Durante tooodo o caminho, eu imaginei mil coisas. Será que ele está pensando na situação? Pq nós estamos sentados um ao lado do outro mas estamos em silêncio! Será que ele também está achando constrangedor? Será que pensa mal de mim? Será que eu sou louca pensando em tudo isso e ele está apenas olhando a chuva caír na janela do ônibus? Ou vendo as pessoas baterem seus guarda-chuvas andando pela calçada? Ok. Eu estava me sentindo mal. Era uma oportunidade única, com certeza o destino tinha juntado a gente naquele dia pra sentarmos um do lado do outro e se conhecer. Conhecer? Mas peraí! Lembra que eu não queria?

Bom…Tinha que pensar em algo pra falar, mas que fosse anormal. Algo que fizesse ele perceber que eu não queria papo mas que queria falar com ele. Ele ia me achar louca. Mas resolvi perguntar umas coisas, pois se não iria me arrepender. Passei horas ensaiando o jeito de falar pra não dar oportunidade de acabar o assunto e surgir uma conversa convencional. Teve até um momento em que eu me virei pra ele, coloquei a boca em posição de fala e desisti. Ele não viu, é claro, mas eu me senti uma perfeita idiota. E se não conseguisse falar, ia me sentir mais idiota ainda. Vai Renata, você não é toda extrovertida? Fala! Não pensa! Fala! Ó, na próxima vez que o ônibus parar no farol você fala heim? Não, agora um carro buzinou, espera parar. Vai! Fala! Ta..espera virar a rua e fala. Ok, virou. GLUPT…

Você acha estranho o fato de eu não querer falar com você? eu disse…

Ele respondeu que não.

Mas você entende o motivo? É engraçado né?

Ah, acho que sim.

Ele respondia as coisas meio diretas e sem dar espaço para uma retrucada mas eu sempre continuava: Você deve me achar a pessoa mais estranha do mundo! e ele: Ah…não…Era engraçado o modo como ele respondia pq eu tinha que arranjar outra coisa bem rápido pra falar sem ficar constrangedor. Você guardou aquilo que eu te dei? [me referindo ao mini-livro] e ele: Guardei sim… eu: Mentira! Sério? Guardou mesmo? ele: Sim, ta guardado. Então eu disse: Você entendeu o propósito daquilo? E ele: Acho que entendi. Então eu quis deixar claro que não tinha sido um mini-livro de amor e disse: Mas não vai pensar que tem algo a ver com.. Ele: Não não, eu sei! Mas eu acho legal continuar assim do jeito que tá. Pq a gente se encontra todo dia no ônibus e tal…E eu: Ah, eu tb acho legal assim. Ta, eu estraguei um pouco falando com vc né? Mas não me aguentei. Ok, fim do assunto. Pra sempre! e ele: Ta, pra sempre.

[…]

Mas eu não sei nem seu nome! eu disse…E ele riu. Ok, então só me fala seu nome. Ele demorou um pouquinho pra responder, deu uma mini pensada e disse: André. E eu: Que legal, sabia que se eu tiver um filho ele vai se chamar André? Acho um nome lindo. Ele sorriu e perguntou meu nome. Eu disse: Renata :]

O silêncio voltou. Mas dessa vez por pouco tempo. Chegou no ponto em que descemos e eu me levantei. Ele, logo atrás de mim foi se levantando também…Quando desci a escada do ônibus e pisei na calçada ele disse: Tchau Renata, bom trabalho! e eu: Tchau André, pra você também.

Fim.

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A 1ª vez que falei com ele.

Hoje, 29/08/08, pela primeira vez falei com meu amigo do ônibus. [aquele do post anterior, que dei o mini livro]
Encontrei ele de manhã no ponto e pegamos o mesmo ônibus, trocamos sorrisos. Na hora do almoço, quando voltava pro meu trabalho, o encontrei atravessando a rua no sentido contrário do meu. Não hesitei e na hora em que nos cruzamos, dei meia volta bem ao lado dele e comecei a andar sorrindo; ele disse: ‘Oi!’ [e sorriu]; eu disse: ‘Oi, você viu o sol hoje?’ e ele: ‘não…o que tem?’ e eu respondi: ‘olha pra ele…’ ele olhou meio confuso, dizendo: ‘ai, é difícil!’ [o sol refletia nos oclinhos de grau dele, escondendo seus olhos claros] e eu ajudei ele falando: ‘calma, pode por a mão em frente ao sol e olhar em volta…’ ele: ‘nooossa! que legal!’ e eu: ‘lindo né? se chama halo solar, procura na internet depois!’ ele deu uma risadinha simpática e eu dei tchau, virando as costas e atravessando a rua de novo. Isso durou uns 8 segundos.
Foi a 1ª vez que ouvi sua voz, mas nos falamos como se já nos conhecêssemos.

Fim.


ps. esta é a foto do halo solar que mostrei pra ele

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Meu Amigo do Ônibus

Desde novembro do ano passado, eu pego o mesmo ônibus no mesmo ponto e no mesmo horário para ir trabalhar. Já passei por 3 empregos diferentes mas o ônibus e o horário continuam os mesmos. E o cara também continua o mesmo. Mas, cara? Que cara?

É, tem um cara que, durante todo esse tempo, me acompanha pegando o mesmo ónibus todo santo dia. Ele sempre está de terno e gravata indo pro trabalho, é narigudo e tem cara de nerdinho. Parece ser super sério, responsável e correto. Nunca reparei muito nele, por ser a pessoa mais neutra do mundo, mas conforme o tempo passava e as pessoas de sempre iam mudando e/ou sumindo, ele nunca mudava muito menos sumia. Sempre estava ali, com a mesma cara, mesma roupa, o mesmo corte de cabelo e o mesmo ar de…’nada’.


Eu consigo imaginar a vida inteira dele na minha cabeça: é noivo de uma nadinha também [pois ele usa aliança de ouro na mão direita], deve trabalhar com algo bem chato tipo contabilidade ou administração, e sai pontualmente às 18 horas para ir pra casa. [durante o almoço eu encontro ele nas mediações de Pinheiros, pois descemos no mesmo ponto também e saímos para almoçar no mesmo horário]. Como eu sei que ele sai as 18? Porque eu também saio, e encontro o dito cujo no ponto para irmos pra casa juntos – descendo no mesmo ponto de novo.

É engraçado pois eu sinto como se o conhecesse intimamente. Eu sei que ele existe, e fico feliz quando o vejo no ponto de manhã ou quando entro no ôbinus para voltar pra casa e ele está passando pela catraca. Gosto quando vejo ele dando um sorriso e me sinto segura com a presença dele. Me faz sentir menos solidão, sabe?

Ele também sabe que eu existo. E, se for como eu, também deve imaginar minha vida toda. Nunca rolou nada de olhares, paquerinha…Mesmo porque, além dele ser comprometido, ele é feinho e não me atrai em nada. Muito pelo contrário! Eu sinto que se o conhecesse, iria achá-lo muito chato. Ele deve ser a pessoa mais sem graça do mundo para se ter uma conversa. Não deve ter coisas engraçadas para contar, não deve se interessar pelas coisas que eu gosto e deve ser aquelas pessoas que ficam esperando você arranjar um assunto para manter uma conversa.

Mas mesmo com tudo isso, eu sentia que precisava fazer alguma coisa por ele. Mesmo morrendo de medo, resolvi fazer um mini-livro. Na capa desenhei ele e dentro escrevi assim: “Sempre quis saber seu nome, onde mora, o que faz, com que trabalha e se é feliz ou triste…Mas não me conte! Se não perde toda a graça!”. Pensei muito antes de entregar. Qualquer passo em falso poderia fazê-lo vir falar comigo ou se afastar pensando que eu queria dar uns amassos com ele. Na verdade, o que eu queria mesmo era mostrar pra ele que eu percebia a existência dele no mundo e fim.


Dias tomando coragem e passando por alguns desencontros, desci do ônibus antes dele e quando ele deseu eu disse: “Oi, fiz uma coisa pra você…” [entregando o mini-livro em sua mão]. Ele pegou, meio que sem entender nada e antes que pudesse esboçar uma reação,eu disse sorrindo: “Tchau!” – ele deu uma risadinha tímida e disse: “Tchau..” [foi a primeira vez que ouvi sua voz]

Andei até o trabalho sem olhar para trás. No dia seguinte de manhã, subi o escadão e quando enxerguei o ponto ele estava lá, como sempre igual. Eu não sabia muito bem como me comportar, mas chegando perto dele, fui recebida com um lindo sorriso. Retribui com outro e fui mais pro lado. Fiquei ali estática, pensando o quanto foi legal ele não ter vindo falar comigo mas ter sido singelo dando um sorriso.

Desde entao, sempre que nos encontramos, trocamos sorrisos e ele até já se arriscou a me dizer “bom dia”.

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